Minha despedida

04/10/2010 at 0:53 (Não categorizado)

Resolvi postar hoje minha carta de despedida de Brusque que já foi lida por inúmeras pessoas, porém resolvi divulgá-la mais uma vez hoje, pensando no sufrágio de hoje, a chegada do segundo turno e a decisão que terei que tomar. Trabalhei 8-9 meses em um governo PT e vi qual é a “ideologia” e o “modo de fazer política” que o partido assume. POLITIQUEIROS! Nem sempre o que queremos será necessariamente o que é melhor para nós mesmos. Porém o PT não pensa no que é melhor e sim no que rende mais votos…

Deixo meu trabalho por inúmeros motivos, que prentendo enumerá-los aqui, de maneira mais sumarizada o possível.

Quando comecei a trabalhar em Brusque, estava decidida a fazer medicina da família e trabalhar com Estratégia de Saúde da Família. Durante minha formação na Universidade Federal o carro-chefe sempre foi saúde pública e coletiva, apesar de ser um campo abandonado, subestimado e maltratado quer seja na medicina ou na política. E principalmente tive uma formação predominantemente voltada para o Sistema Único de Saúde. Sempre admirei esse sistema, apesar de inoperante, como costumava dizer um professor meu. Estudei e fiz minha lição de casa direitinho e aprendi e apreendi como esse sistema beirava à perfeição, porém sempre permanecia ignorado pela sociedade brasileira, seja pela elite ou sejam pelos miseráveis, todos meus aculturados compatriotas.

Assumi a Unidade de Saúde da Limeira sem sequer imaginar a magnitude do problema que eu estava resolvendo assumir e aprendi MUITAS lições. Permaneci de agosto a fevereiro na unidade, neste tempo conquistei alguns pacientes, alguns amigos, alguns admiradores e alguns desafetos e desaforos. Durante meu tempo de serviço, eu e a equipe com quem trabalhava atualizamos todo o cadastro de Hiperdia (hipertensos e diabéticos), implantei um controle de psicotrópicos, produzi diversos materiais educativos, realizamos atividades com a escola e a creche que compartilhavam o terreno municipal conosco, fizemos diversos pré-natais, iniciamos com puericultura no bairro (coisa que nunca havia existido antes), realizei diversos procedimentos cirúrgicos e implantamos a agenda médica (coisa que não existia antes, já que o que havia era uma fila de pessoas gladiando-se por uma vaga médica a partir das 4h da madrugada). E claro, como boa aluna, sempre baseando-me nos princípios e diretrizes do SUS: sempre em serviço da universalidade, eqüidade, integralidade, comunidade, descentralização, hierarquização e regionalização… e principalmente inter e multidisciplinaridade. Ainda considerando e complexando proporcionalmente a falta de dinheiro, de recursos humanos, de subsídios, de infra-estrutura e de cultura em que a saúde brasileira precisa sobreviver para não ir à falência. Sempre procurei economizar, seguindo sempre que possível diretrizes e recomendações como da Organização Mundial da Saúde ou do Ministério da Saúde Brasileiro. Obviamente muitas vezes não fui educada, atenta ou empática com meus pacientes, mas sei que estas foram poucas vezes, afinal sou um ser humano com nervos, sentidos e neurotransmissores. Todavia sempre procurei realizar minhas atividades com afinco, dedicação, sensibilidade e capricho. Cumpri meus horários sempre com lealdade e sempre tentei ser companheira de minha equipe.

No entanto, tirei 1 mês de férias (merecidas) e ao voltar soube que não me queriam mais na minha comunidade que tanto tentei zelar… logo lá havia outro médico. E para falar bem a verdade, acho que, provavelmente, nenhum paciente sentiu falta de mim, por mais triste que isso possa parecer. O outro também é médico.

Durante os meses que prestei meu serviço consegui perceber que mulher sofre e mulher jovem sofre mais ainda. Olham-te com desconfiança como se foste uma incapaz. Ou como se foste inseguro e duvidável. Recém-formado também, não deve saber coisa alguma. Imaginei que seria admirada por ser jovem e mulher e por em tão pouco tempo haver subjugado um diploma tão almejado por tantos. Mas padeci do fardo deste título.

Suei muito, ouvi muitos desaforos, sofri muita reprovação. Mas não larguei minha posição, porque em nenhum momento deixei de cumprir meu dever. Sempre fui honesta e fiel aos meus princípios de ética e de minha sensibilidade para com meu próximo. Ao meu ver, Estratégia de Saúde da Família existe para PROMOVER SAÚDE.

Mas aos poucos percebi que a população não queria saúde e o governo local também não tinha muito interesse em realizar esta promoção, essa mudança de paradigmas que ainda existe em Brusque. Lidei com transcrição de receitas, de exames e de idéias. O SUS serve somente como oba-oba. Vou lá tentar usurpar um pouco do governo e pegar algumas “coisinhas” de graça. E esquecem que nada disso é de graça. Nada disso é vantagem. Ainda paradigma de ressonâncias magnéticas, paradigma de check-ups completos, sem me importar se converso com o médico. Pra que ele serve mesmo? Ah, lembrei! Para carimbar minha receita de rivotril e minha requisição de exame de colesterol e de hemograma, mesmo que eu não saiba pra que eles servem, mas eu preciso fazer, pois isso que importa e isso que vai me dizer se estou bem ou não. Em muitas oportunidades, não fui médica… fui burocrata, assinei papéis, preenchi protocolos, condisse com processos de medicações muitas vezes incabíveis e com processos prescindíveis. Médico de serviço público que não serve para nada, não sabe nada e está ali porque não arranjou nada melhor para fazer. Afinal eu não sou candidata a prefeita, não sou médica especialista que digo que sou especialista em muitas outras coisas diversas, não tenho uma clínica bonita e nem minha consulta custa caro. Aliás, meus 6 anos de estudo e meus 20 min de “consulta” custam menos que R$5,00. Nada mais justo…

E apesar de ainda tudo isso, escuto só ordens… ordens e mais ordens. Mandado de quero 3 dias de atestado, encaminhamento para o cardiologista, exames porque quero fazer. Eu sempre achei que tinha estudado e conquistado um diploma para dizer quantos dias uma pessoa deve repousar em casa, se eu acho que não consigo dar conta do recado e preciso de auxílio de colega, saber exatamente quais exames uma pessoa deve fazer e se é que tem que fazer algum exame. Achei que o médico por si só cabia. Afinal, até para ler colesteróis, é preciso interpretação e PRINCIPALMENTE o que fazer com isso tudo. Mas as pessoas, meus suspostos pacientes, não querem conversar comigo, não querem nem me dizer bom-dia, querem só pegar seus papéis carimbados e cair fora. Mesmo que pareça inacreditável, nestes 8 meses de serviço público, poucos agradecimentos ouvi. Sim, meus pacientes não me diziam obrigado, nem sequer se despediam de mim. E eu sempre ouvi dizer que os médicos do sistema público atendiam em menos de 3 minutos, nem olhavam na cara dos pacientes e nem queriam saber de nada, só precisavam assinar suas folhas-pontos e irem embora para seus consultórios com ar condicionado e secretária para fazer suas burocracias.

E se não fosse por isso tudo, o quanto ouvi, o quanto sofri e o quanto chorei por somente tentar educar, por ter estudado e por ter me dedicado para ter noção do que é provavelmente o mais apropriado em saúde, tive ainda que ver que não era isso que meus empregadores queriam de mim. Enquanto eu padecia para ensinar, educar, formar um vínculo, insistir em fazer o certo… apesar de que nem sempre o que seja o melhor para o paciente, seja o que ele queira, embasando-me na medicina de família e comunidade que consegui aprender e compreender em 6 anos de dedicação, ainda havia os meus próprios superiores que não me apoiavam no que eu julgava ser honesto, ético e apropriado.

Queriam números, sorrisos e votos. Quantas ligações recebi para saber porque não havia transcrito receitas, exames, encaminhamentos. Ou por que falei palavras verdadeiras para alguns pacientes. E até mesmo ligações porque fui ética e porque fiz o que achava mais adequado fazer com meus pacientes baseando-me em medicina. A razão sempre é do usuário. Todos temos direitos de nos expressarmos quando descontentes, porém todos devem ser ouvidos e analisados. Voltaire disse uma vez sobre poder não concordar com vossas opiniões, mas sempre defender o direito de lhes expressar-lhes. Todavia, aparentemente, quem tinha razão costumava ser o usuário e principalmente o que grita e espernea mais.

A corrupção começa por baixo, talvez por exemplos embutidos nas mentes de nossa cultura desonesta. Quantos encaminhamentos ou cirurgias vi serem marcados na frente de outros de forma misteriosa pelos fato desses usuários terem ido à prefeitura incomodar, ou terem conversado e “ajeitado” com sicrano ou fulano. Ou quantos funcionários vi não cumprirem horário e a prefeitura fingir que não havia visto?

Até ouvi desaforo de um rapaz de 17 anos machucado por acidente de moto em que ele estava dirigindo, ou seja, infringindo a lei, e ouvi obscenidades por não fornecer um pedido de raio-X para o mesmo até que ele fosse pessoalmente na unidade me dizer o que queria. O que aconteceu? Ao questionar a prefeitura, a própria secretária de saúde esteve na residência do mesmo, concedendo esse privilégio para o infrator fora-da-lei e doou a tal requisição. Passou por cima da minha conduta, passou por cima da ética entre colegas profissionais, passou por cima da MORALIDADE de conceder habilmente direitos que ele NÃO tinha.

Ou ainda o que vi há 2 semanas? O médico prescreve codeína, analgésico opióide de receita controlada, e a farmácia da prefeitura fornece paroxetina por 2 meses, não sei por qual motivo, sem identificação do fornecedor. Obviamente a paciente veio me perguntar por que o médico havia dito que prescreveria remédio e ela estava tomando anti-depressivo!

Vi acidente pérfuro-cortante de profissional da saúde com fonte conhecida em que a Vigilância Sanitária, departamento da Secretaria de Saúde , informar à colega que não havia nada a ser feito. Qual é o cuidado que há conosco, colaboradores da prefeitura? Que protocolo é esse da prefeitura de Brusque em que não existe regra para nada, que não segue recomendações do SUS, do Ministério da Saúde? Sempre imaginei que meu serviço, ou seja, o ESF tinha sido implementado justamente por este último.

Na verdade, os profissionais de saúde com quem eu trabalhava não conheciam saúde coletiva, saúde pública, estratégia de saúde da família, atenção primária, promoção de saúde. E não conheciam por falta de interesse. É ainda algo novo. Velho para alguns, novidade para outros. Porém acredito que falte da prefeitura realizar este compartilhamento de informação, de cultura, de vontade de crescer e todos poderem trabalhar juntos em prol dos mesmos destinos.

Quero trabalhar em um local em que haja saúde, em que haja honestidade, em que haja reconhecimento, em que haja apoio, em que haja respaldo, em que haja segurança, em que haja colegas comprometidos e no mesmo time. E que eu possa respirar aliviada e satisfeita por ser honesta e cumprir meus deveres. Mas em Brusque, os usuários acreditam que têm muitos mais direitos que deveres e a prefeitura muitos mais eleitores que seres humanos que necessitam e pagam caro por saúde e dignidade.

Por favor, encarem todos esses desabafos como uma crítica construtiva de alguém que quer ver todas as partes envolvidas – governo, usuários e profissionais e colaboradores – crescerem juntas e em sintonia. Pois ainda há MUITO o que fazer para crescer e melhorar.

Esta “carta” foi enviada à prefeitura de Brusque, à secretária de saúde da cidade e aos demais encarregados na Secretaria de Saúde e, por incrível que pareça, não obtive NENHUMA resposta em relação a todas minhas queixas, sugestões, denúncias que manifestei.

Meu nome é Marianna Lago, CREMESC 15.538, formada na Universidade Federal de Santa Catarina em julho de 2009.

A prefeitura para a qual eu trabalhava era do Partido dos Trabalhadores (PT), o prefeito da cidade chama-se Paulo Eccel e sua secretária de Saúde Cida Belli.

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