Vermelho como camarão

05/10/2010 at 15:15 (Não categorizado)

Impossível conversar com eles, por rápido que fosse, sem também acabar se sentindo maluco. O motivo da maioria se dedicar a essa profissão é porque vive preocupado com a própria sanidade mental. E examinar a cuca da gente é a pior coisa que um louco pode fazer, todas as teorias em contrário não passando de papo furado. De vez em quando um biruta se saía com perguntas desta ordem:

– Ei, cadê o Dr. Malov? Não vi ele hoje. Entrou em férias? Ou foi transferido para outra clínica?
– Entrou em férias – respondia outro doido -, e foi transferido para outra clínica.
– Não entendi.
– Facão de açougueiro. Nos pulsos e na goela. Não deixou explicação.
– Era um sujeito tão bacana.
– Ah, pois é, porra.
(…)
Andava com mania de suicídio e com crises de depressão aguda; não suportava ajuntamentos perto de mim e, acima de tudo, não tolerava entrar em fila comprida pra esperar seja lá o que fosse. E é nisto que toda a sociedade está se transformando: em longas filas à espera de alguma coisa. Tentei me matar com gás e não consegui. Mas tinha outro problema. Levantar da cama. Sempre tive ódio disso. Vivia afirmando: “As duas maiores invenções da humanidade foram a cama e a bomba atômica; não saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo”. Acharam que estava louco. Brincadeira de criança, é só disso que essa gente entende: brincadeira de criança – passam da placenta pro túmulo sem nem se abalar com este horror que é a vida.
Sim, eu odiava ter que me levantar da cama de manhã. Significava que a vida ia recomeçar e depois que se passa a noite inteira dormindo cria-se uma espécie de intimidade especial que fica muito difícil de abrir mão. Sempre fui solitário. Você vai me desculpar, creio que não regulo bem da cabeça, mas a verdade é que, se não fosse por uma que outra trepadinha legal, não me faria a mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem. É, sei que isso não é uma atitude simpática. Mas ficaria todo refestelado aqui dentro do meu caracol. Afinal de contas, foram essas pessoas que me tornaram infeliz.

Trecho do conto Vermelho como camarão do livro Fabulário Geral do Delírio Cotidiano – Ereções, Ejaculações e Exibicionismos – Parte II de Charles Bukowski (último livro que li).


"So you think you can stop me and spit in my eye.
So you think you can love me and leave me to die.
Oh, baby, can't do this to me, baby,
Just gotta get out, just gotta get right outta here.
Nothing really matters, anyone can see,
Nothing really matters,
Nothing really matters to me.

Any way the wind blows."

* Bohemian Rapsody - Queen
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